Na competição pela tua atenção, tu raramente ganhas

Na indústria onde trabalho, ter uma conta no Twitter permite-me estar a par dos últimos desenvolvimentos na área e dar-me a conhecer a outros. Portanto, é uma necessidade - ou pelo menos tento frequentemente convencer-me disso, sempre que vejo o meu tempo a afundar-se num scroll infindável de conteúdo aleatório…
Eis o drama que me acontece pelo menos uma vez por semana. Alguém na minha empresa partilha um tweet bastante relevante sobre algum desenvolvimento de AI. Interessado, abro e leio o tweet. Por vezes inclusive pode ter algum artigo ou nova aplicação que gostaria de experimentar, portanto faço um bookmark nesse post. E ao mesmo tempo, os meus olhos são atraídos por um outro tweet que mostra um vídeo de alguém a fazer um feito incrível - não posso simplesmente ignorá-lo, senão talvez o perca para sempre! Isto sou eu a racionalizar as minhas ações, porque na realidade não penso em absolutamente nada nesse momento. E o mesmo fenómeno acontece novamente, e novamente… Passados 30 minutos, apercebo-me de que tinha ido fazer alguma coisa ao Twitter, mas já nem sei bem o que era. Volto para o chat do trabalho. Ah certo, o meu colega tinha partilhado este desenvolvimento interessante!
O que me aconteceu não é falta de disciplina. É o resultado de uma guerra silenciosa pelo recurso mais valioso do mercado ao consumidor: a tua atenção.
A guerra pela tua atenção
Não será novidade para ninguém afirmar que a esmagadora maioria da sociedade está mais tempo no seu telemóvel do que devia, ou mais tempo noutro tipo de ecrãs do que o ideal. Isto não é por acaso, mas também não é necessariamente porque a indústria tecnológica quer que as pessoas percam tempo da sua vida. Talvez isso nem lhes passe pela cabeça, apesar de, em certos momentos fugazes de auto-reflexão, passar pela cabeça até do fã mais ferrenho da Apple ou do Stranger Things.
Certo é que quando o computador pessoal surgiu na casa das pessoas, o fascínio (e, sendo sinceros, a utilidade!) foi tal que passou a tomar uma parte substancial da vida das famílias. O mesmo para a televisão, que inclusive alterou a disposição da sala de estar da maioria. No entanto, perdêssemos tempo ou não nestas tecnologias, éramos capazes de sair de casa e desligar por completo da sua influência.
Com a entrada dos smartphones no mercado - em particular, com a disrupção trazida pelo primeiro iPhone em 2007 - o acesso à internet e a conteúdos mediáticos passou a ser transportado no bolso do utilizador. E com isto, tornou-se possível permanecer continuamente "conectado", continuamente online. Ou visto de outra perspectiva, tornou-se difícil de desligar da influência destas tecnologias.
Ora, qualquer pessoa que tenha alguma vez decidido reduzir o seu tempo gasto a fazer scroll no Instagram ou no TikTok, ou a falar com amigos e conhecidos no Whatsapp, ou a ver vídeos no YouTube, certamente se deparou com uma realidade devastadora: é brutalmente difícil. Perguntamo-nos: porque será isto? Porque é que num dia decido não passar muito tempo no YouTube, e no outro fico 1 hora a ver shorts? Como é que eu disse que era o último episódio desta série que iria ver hoje, e no fim não resisti a passar para o próximo?
A armadilha

A resposta é simples: estas tecnologias e estas empresas fazem TUDO para ter a tua atenção. Elas vivem única e exclusivamente à base de te reter indefinidamente nas suas plataformas. Quando tentas controlar o tempo que investes nestas aplicações, estás na realidade a travar uma batalha absolutamente hercúlea. És um jovem David a batalhar um gigante Golias. Não és tu que não tens auto-disciplina, são eles que são incansáveis. Sim tens uma natureza imperfeita, mas eles não fazem outra coisa senão estudar como a explorar.
Esta realização fez Jake Knapp e John Zeratsky concluírem no seu livro Make Time: "A força de vontade não é a saída". Experientes designers de produto na Google, eles chamam a estes poços tecnológicos sem fundo Infinity Pools:
"As Infinity Pools têm como predefinição a distração sem fim. Os nossos telemóveis, portáteis e televisões estão repletos de jogos, feeds de redes sociais e vídeos. Tudo está à distância de um clique, irresistível, viciante até. Cada ponto de fricção é suavizado"
Esta predefinição ou default, usando o termo tecnológico, não surge unicamente nas novas tecnologias. Efectivamente, uma secretária desarrumada e cheia de tralha oferece também à nossa mente vários meios diferentes de distração. No entanto, a vida da secretária não depende de nos manter distraídos. Contrariamente, essencialmente qualquer coisa que toquemos dentro do nosso computador ou telemóvel sobrevive apenas se for capaz de reter a nossa atenção - o que invariavelmente nos fará distrair do mundo real ou das outras facetas da vida.
A realidade da situação é que existem dois tipos de pessoas: aqueles que conseguem perfeitamente dominar essas tecnologias sem ser influenciados, e aqueles que não conseguem…
E o primeiro tipo não existe.
Sair da água…
O problema não é apenas a distração - é o que ela nos custa: tempo para as coisas que mais nos importam.
Efectivamente, para onde vai a nossa vida? "Será que estamos todos simplesmente presos no autopilot?" (Make Time) Não nos acontece tantas vezes que sonhamos com ter tempo para certos empreendimentos, certas atividades que faremos "um dia"? E ao mesmo tempo que estamos sem tempo, não nos acontece chegar ao fim do dia e pensar: o que é que eu fiz hoje?
A solução passa por adicionar alguma intencionalidade na nossa vida, para variar do constante deixar-se arrastar pela corrente. Mas se em certos casos a corrente é muito forte, mais vale sair da água ou nem entrar nela!
Há qualquer coisa de esquisito, talvez mesmo patológico, no facto de o mundo repugnar a ideia de desinstalar aplicações do telemóvel. De um lado da balança, temos redes sociais e outras aplicações a injetar conteúdo infinito no nosso cérebro, a esgotar o nosso tempo e a nossa energia mental com um retorno baixo face ao investimento. Do outro lado, temos não estar constantemente a par da vida dos outros, não responder imediatamente a uma mensagem, e não ter nada que fazer quando estamos numa fila de espera. Se a corrente é perigosamente forte, porque não simplesmente sair para terra firme? Podemos perfeitamente dizer não ao que Cal Newport chama Oreos digitais:
"Tratam-se de Oreos digitais; delicioso, mas algo que não devíamos ter problema em pôr de lado dizendo: 'Eu não como essa treta'".
John C. Maxwell compara o tempo a um bloco de mármore:
"O tempo é como um bloco de mármore. Dá um bloco de mármore a uma pessoa comum e acabas com… um bloco de mármore. Mas coloca-o nas mãos de um mestre escultor e observa o que acontece! O escultor olha para ele com olhos de artista. Primeiro, decide o que vai criar. Depois, pratica as disciplinas do seu ofício até transformar pedra sem vida numa obra-prima. Acredito que tu e eu podemos tornar-nos como o escultor. Podemos aprender a ser mestres artesãos - não de pedra, mas das nossas vidas." (Today Matters)
Na feroz competição tecnológica pela tua atenção, tu raramente consegues vencer. Diz não ao que podes, e constrói sistemas na tua vida que recompensem intencionalidade. Do outro lado, só te espera uma vida mais calma, recompensadora, intencional, e tua. Fernando Pessoa, pela voz de Ricardo Reis, capturou isto melhor do que eu conseguiria:
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.